Crítica | “O Gatola da Cartola” tem criatividade de sobra, mas nem sempre sabe aproveitá-la.

A primeira adaptação animada para os cinemas de “O Gatola da Cartola”, personagem criado por Dr. Seuss, apresenta uma nova aventura do felino depois de sua ultima versão feita em 2003. Mas antes mesmo do longa começar, o curta de Patolino e o Looney Tunes oferece um momento divertido e funciona como uma boa abertura para a sessão. Já a história principal aposta em uma proposta interessante, mas talvez não tão envolvente.

Um dos grandes destaques da produção é sua identidade visual. As cores vibrantes ajudam a construir um universo fantasioso, enquanto a diferenciação entre os núcleos e a combinação de elementos em 2D e 3D contribuem para a variedade estética do filme. A criatividade também aparece na construção das Coisas, personagens que protagonizam algumas das situações mais divertidas da narrativa. Os trocadilhos envolvendo esses personagens são explorados de diferentes maneiras e, em determinados momentos, ganham forma literal, se tornando grande parte da comédia do filme. Além de funcionarem como alívio cômico, eles também assumem um papel importante nos conflitos da história.

A ideia de transformar a essência caótica do personagem em um conflito profissional funciona e cria situações interessantes: A trama apresenta o Gatola como um profissional encarregado de divertir crianças e estimular sua imaginação. Entretanto, seu histórico de bagunças coloca seu emprego em risco, fazendo com que a missão com Gabby e seu irmão se torne uma oportunidade de provar que consegue cumprir seu trabalho sem causar tantos problemas.

A relação de Gabby com a família (principalmente com a mãe) depois da mudança para uma nova cidade, dá à aventura um conflito que vai além das brincadeiras. A dificuldade de adaptação da menina é compreensível, mas o roteiro recorre a diálogos excessivamente expositivos para comunicar seus sentimentos. Quando Gabby afirma diretamente que a mãe não a entende ou que é sem graça e que quer voltar pra casa, por exemplo, sobra pouco espaço para que o público perceba essas frustrações por meio das situações e atitudes das personagens. Embora essa escolha possa estar relacionada ao público infantil ao qual o filme se destina, ela também levanta uma questão sobre o audiovisual contemporâneo: em uma época em que dividimos nossa atenção entre a tela e o celular, será que as histórias estão cada vez mais preocupadas em explicar tudo para não perder o espectador pelo caminho? Independentemente da intenção, o resultado é uma narrativa que poderia confiar mais na capacidade do público de interpretar o que vê.

O Gatola da Cartola tem qualidades que merecem reconhecimento, especialmente na parte visual e na criatividade da construção de seu universo. No entanto, enquanto as escolhas estéticas demonstram personalidade, o roteiro nem sempre consegue desenvolver seus conflitos com a mesma naturalidade. A história tem elementos para envolver o público, mas acaba explicando demais e explorando de menos algumas de suas possibilidades.

É uma animação que pode divertir seu público e oferece bons momentos de comédia, mas que não consegue aproveitar todo o potencial de seu personagem e de suas ideias. Entre as cores, as brincadeiras e as tentativas de emocionar, o filme acaba deixando a sensação de que poderia ir além.

Nota: ⭐⭐⭐

Por: Luiza Wauthier

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