Crítica | “Cartório das Almas”: o peso de existir para sempre

“Ser imortal fez com que eu morresse muitas vezes em vida. Os banhos tiraram a minha dor, mas também as minhas raízes e minhas lembranças.”

Até onde vai a coragem de compreender o próprio fim? Em “Cartório das Almas”, a vida, se ainda podemos chamá-la assim, continua a representar algum significado mesmo para aqueles que já não encontram motivos para permanecer nela. Em um mundo distópico no qual a imortalidade deixou de ser uma dádiva, a possibilidade de viver para sempre se transforma em uma condenação silenciosa. Afinal, o que resta da existência quando o tempo já não impõe limites, mas também não oferece novas razões para continuar?

Produzido por Alisson Machado, o longa acompanha Laura (Gabriela Correa), uma mulher de 126 anos que começa a trabalhar no Cartório das Almas, instituição responsável por registrar os motivos daqueles que decidem encerrar a própria existência. Nesse universo, a morte não acontece de maneira convencional: após a passagem, os indivíduos assumem a forma de pássaros, incorporando à paisagem uma representação visual da liberdade que tanto desejavam. Laura, entretanto, está impedida por contrato de tomar a mesma decisão. Antes mesmo de ocupar esse posto, ela já havia feito sua escolha: continuar existindo, ainda que alguma coisa dentro de si parecesse ter deixado de viver.É nessa contradição que o filme encontra sua principal reflexão.

A imortalidade, frequentemente explorada pela literatura e pelo cinema como um desejo humano, assume aqui o peso de uma rotina interminável. Se, nas narrativas tradicionais sobre vampiros, a sede é aquilo que os condena a continuar vivendo para matar, em “Cartório das Almas” a própria continuidade da existência parece ter se transformado em um hábito. Permanecer de pé não significa necessariamente querer estar vivo. E viver por mais tempo, como a trajetória de Laura sugere, não significa sentir mais. A protagonista habita uma espécie de gaiola psicológica. Seu trabalho a coloca diante das razões que levam outras pessoas a partir, enquanto ela permanece presa às próprias dúvidas. Os relatos, os comentários breves e os pequenos sinais espalhados pela narrativa alimentam uma questão que atravessa o filme: é egoísmo não querer se despedir? Ou existe uma forma de crueldade em prolongar uma existência quando já não se reconhece nela qualquer possibilidade de mudança? O longa não oferece respostas definitivas, mas encontra nesses questionamentos seu terreno mais fértil.

A escolha dos pássaros como representação daqueles que atravessam o limite entre a existência e a morte é particularmente significativa. Voar sugere liberdade, desprendimento e a possibilidade de escapar de uma realidade que se tornou insuportável. Entretanto, até mesmo essa imagem carrega uma ambiguidade: partir significa conquistar a liberdade ou apenas encontrar outra maneira de deixar para trás o peso de existir? Na obra, a transformação ganha força como conceito visual, embora nem sempre encontre correspondência na profundidade dramática que a narrativa poderia alcançar.

Filmado integralmente em Brasília, o longa utiliza a arquitetura modernista da capital, espaços como o Museu Nacional e a Torre Digital, além das paisagens do Cerrado, para construir a identidade de seu futuro distópico. A cidade não funciona apenas como cenário, mas como parte da atmosfera da obra. Seus espaços amplos, suas linhas geométricas e a organização dos ambientes reforçam a sensação de isolamento e a frieza de uma sociedade que parece ter transformado até mesmo a morte em procedimento burocrático. A direção de arte de Maíra Carvalho merece destaque nesse conjunto. Há cuidado na composição dos ambientes, na disposição dos objetos e na maneira como os personagens ocupam os espaços. A coloração e a construção visual ajudam a estabelecer uma unidade estética, enquanto determinadas imagens produzem uma atmosfera de desconforto que pode atingir o espectador de maneira bastante particular. Em alguns momentos, o filme constrói visualmente um drama psicológico capaz de despertar angústia, sobretudo pela repetição de situações e pela sensação de aprisionamento que acompanha Laura.

O reconhecimento conquistado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2023, quando recebeu o Candango de Melhor Longa-Metragem pelo júri popular, além dos prêmios de Melhor Direção de Arte e Melhor Edição de Som, evidencia a força de aspectos importantes da produção. O elenco, formado por artistas como Gabriela Correa, Wellighton Abreu, Gabrielle Lopes, Chico Sant’Anna, Paula Passos, Camila Guerra e Roustang Carrilho, integra essa construção de um mundo no qual a vida parece ter perdido sua capacidade de surpreender. Entretanto, se a proposta desperta curiosidade, sua execução encontra obstáculos.

O roteiro poderia oferecer mais clareza sobre o funcionamento daquela sociedade e as circunstâncias que conduziram Laura à sua condição. Sabemos que as pessoas deixaram de envelhecer, que existe uma instituição responsável por registrar a decisão de partir e que determinadas regras impedem alguns indivíduos de escolher o próprio destino. Ainda assim, algumas explicações fazem falta, principalmente quando poderiam aprofundar os conflitos da protagonista e tornar mais compreensível a lógica daquele universo. A ausência de respostas pode ser uma escolha narrativa coerente com uma obra interessada no absurdo da existência.

Nem todo mistério precisa ser solucionado, e nem toda distopia deve apresentar um manual de funcionamento. O problema surge quando a falta de informação deixa de alimentar a reflexão e passa a limitar o envolvimento com a história. Em determinados momentos, fica difícil distinguir o silêncio proposital de uma lacuna no desenvolvimento dramático. O ritmo também pesa nessa experiência. A repetição de acontecimentos e as sequências prolongadas, muitas vezes sustentadas por poucos diálogos, contribuem para representar a monotonia de uma vida sem fim. A intenção é compreensível: fazer com que o espectador experimente, ainda que parcialmente, o cansaço que atravessa aquele universo. No entanto, a estratégia nem sempre funciona. A força das imagens repetidas não encontra correspondência constante no desenvolvimento da trama, e a atmosfera, que inicialmente desperta interesse, acaba se tornando cansativa.

Em alguns momentos, a obra parece ter uma essência que funcionaria melhor em um curta-metragem. Sua premissa é direta, seu conceito visual é reconhecível e suas inquietações não precisam de muitos desvios para alcançar o espectador. Ao prolongar determinadas situações sem acrescentar novas camadas aos conflitos, o filme perde parte da força que constrói em seus melhores instantes. A repetição, que deveria traduzir o aprisionamento, por vezes aprisiona também a própria narrativa.

“Se nasce, se morre.” A frase parece simples diante de uma sociedade que rompeu justamente com essa lógica. Mas o que acontece quando o fim deixa de ser uma certeza e passa a ser uma escolha burocratizada? Quando a liberdade de partir depende de regras, contratos e protocolos? Laura trabalha em um lugar que registra as despedidas alheias, mas não consegue encontrar uma saída para a própria condição. É como se vagasse por uma existência esvaziada, observando aqueles que conseguiram fazer aquilo que ela ainda não sabe se deseja. “Cartório das Almas” encontra sua maior força na tentativa de deslocar o olhar sobre a imortalidade e questionar a ideia de que viver mais é, necessariamente, viver melhor. Sua fotografia, direção de arte e concepção visual sustentam uma experiência que merece atenção, mesmo quando o roteiro deixa perguntas importantes pelo caminho.

Há uma reflexão instigante sobre liberdade, solidão e o esgotamento de permanecer, mas a execução nem sempre consegue transformar esse conceito em uma narrativa igualmente envolvente. No fim, fica a impressão de uma obra que alcança momentos interessantes, mas tropeça ao tentar sustentar suas próprias ideias durante toda a duração. A vontade de questionar o peso de existir está presente; o que falta, em alguns momentos, é fazer com que esse questionamento avance junto com a história.

Nota: ⭐⭐½

Por Rebeca Furtunato 

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