“Quem é esse menino?”
A pergunta, que parece simples, carrega muito mais do que uma curiosidade sobre a personalidade de Gugu. Em “Feito Pipa”, novo longa-metragem dirigido por Allan Deberton, ela também nos conduz a uma reflexão sobre identidade, pertencimento e o direito de uma criança descobrir quem é sem precisar enfrentar constantemente o julgamento daqueles que deveriam protegê-la. Existem filmes que nos emocionam pela história que contam, e outros que nos tocam porque conseguem despertar sentimentos que nem sempre sabemos colocar em palavras. “Feito Pipa” é um desses filmes. Sensível, delicado e atravessado por diferentes camadas de afeto, o longa constrói uma narrativa sobre infância, amor, preconceito, abandono, luto e, sobretudo, a necessidade humana de encontrar um lugar onde seja possível existir em liberdade.
Acompanhamos Gugu (Yuri Gomes), um menino de 11 anos que encontra na avó Dilma (Teca Pereira) não apenas uma figura materna, mas seu verdadeiro lar. A relação entre os dois é, sem dúvida, o coração da narrativa. Existe uma cumplicidade tão bonita entre eles que é impossível não se envolver. Dilma compreende o neto de uma maneira que poucas pessoas parecem conseguir. Ela não tenta enquadrá-lo em expectativas, não limita seus desejos e não transforma sua maneira de ser em motivo de questionamento. Pelo contrário, oferece a ele aquilo que deveria ser um direito de toda criança: acolhimento.
Existe ainda uma ausência que atravessa toda essa família: a mãe de Gugu, assassinada antes de ter a oportunidade de acompanhar o crescimento do filho. Sua memória permanece viva no coração de Dilma e Batista, marcada pelas lembranças de uma vida interrompida pela violência. Para Gugu, entretanto, essa relação é diferente: sem ter podido construir memórias ao lado dela, sua mãe existe principalmente no imaginário, nas histórias e nas lembranças compartilhadas por outras pessoas. É doloroso perceber como essa ausência ganha contornos ainda mais complexos quando o menino chega a expressar o desejo de que o pai tivesse morrido no lugar da própria mãe. Uma fala dura, mas reveladora do ressentimento e do desamparo que atravessam sua infância, especialmente diante de uma figura paterna que não consegue oferecer o acolhimento de que ele tanto precisa.
É nesse relacionamento que encontramos uma das construções mais bonitas do filme. Dilma representa segurança e liberdade. É a partir desse vínculo que Gugu consegue experimentar o mundo, desenvolver sua personalidade e compreender que não precisa abandonar partes de si para ser amado. Existe algo muito significativo em acompanhar uma criança que, mesmo diante das dificuldades, encontra na relação com outra pessoa a possibilidade de florescer. Mas nem sempre o mundo oferece a mesma gentileza. Quando a saúde da avó começa a se fragilizar, Gugu passa a conviver com o medo de perder a pessoa que mais o compreende. A duvida sobre “Quem é esse menino?” parte dela, e além de representar a incerteza de quem seria aquela criança que a questiona todo tempo, é também, uma reflexão sobre o pertencimento de ser livre, O luto, nesse contexto, não aparece apenas como a possibilidade de uma despedida, mas como a ameaça de perder a própria referência de segurança. Para uma criança de 11 anos, imaginar a vida sem aquela que representa seu principal ponto de apoio é uma experiência especialmente dolorosa.
E é justamente quando a figura paterna ganha maior dimensão na narrativa que outras fragilidades começam a aparecer. Batista (Lázaro Ramos) carrega uma relação atravessada por ausências, conflitos e dificuldades de aceitação. O relacionamento entre pai e filho não é construído a partir de uma oposição simplista entre personagens bons e ruins, mas evidencia as consequências de um afeto que não consegue se manifestar de maneira saudável. Existe uma complexidade interessante nessa construção, especialmente porque o filme não ignora o impacto que determinadas atitudes adultas podem provocar na formação emocional de uma criança.
Gugu, que deveria estar ocupado descobrindo o mundo, brincando e vivendo as experiências próprias de sua idade, acaba precisando assumir responsabilidades que não deveriam ser suas. O descaso paterno o coloca diante de situações em que precisa administrar conflitos, lidar com inseguranças e tentar preservar aquilo que considera indispensável para sua existência. É uma inversão dolorosa: em vez de encontrar nos adultos a proteção necessária para atravessar suas dificuldades, ele precisa desenvolver mecanismos para enfrentar sozinho questões que ainda não possui maturidade para compreender completamente.
Nesse sentido, a direção de Allan Deberton encontra uma de suas maiores forças ao escolher a perspectiva infantil como principal condutora da história. Trazer tantas realidades e complexidades,locais, relacionais, geracionais e de gênero, atravessadas pelo luto e pelo abandono, através do olhar de uma criança, sem perder a sensibilidade, não é uma tarefa simples. O diretor compreende que nem tudo precisa ser explicado para ser sentido. Em diversos momentos, os silêncios, os gestos e as pequenas reações dos personagens dizem muito mais do que qualquer diálogo poderia oferecer.
O roteiro, assinado por André Araújo e Allan Deberton, também merece atenção pela maneira como trabalha os diferentes vínculos que atravessam a infância de Gugu. A narrativa não se limita ao núcleo familiar e encontra na amizade um espaço importante de respiro. Afinal, nem tudo é tristeza. A conexão entre Gugu e outras duas crianças proporciona momentos divertidos, espontâneos e cheios de ternura. É bonito acompanhar essa relação, que representa justamente aquilo que a infância deveria oferecer: liberdade, companheirismo e a possibilidade de ser aceito sem precisar dar explicações.
O elenco é outro elemento importante nessa construção. Yuri Gomes entrega uma interpretação bastante espontânea, conferindo autenticidade a Gugu sem transformar suas dores em um recurso exageradamente sentimental. Há uma naturalidade interessante na maneira como o ator conduz o personagem, especialmente nos momentos em que a criança tenta compreender situações que ultrapassam sua própria capacidade emocional. Teca Pereira, por sua vez, constrói uma Dilma acolhedora, firme e cheia de personalidade. Sua presença é fundamental para estabelecer o vínculo afetivo que sustenta toda a narrativa.
Já Lázaro Ramos assume um personagem que exige atenção às suas contradições. Batista não é apenas a representação de uma figura paterna ausente, mas alguém cuja relação com o filho evidencia as dificuldades de romper com determinados preconceitos e expectativas. É justamente nessa dinâmica que o longa encontra espaço para discutir como a violência nem sempre se manifesta de maneira física. Às vezes, ela aparece na rejeição, no silenciamento, na tentativa de controlar a identidade de alguém e na incapacidade de oferecer acolhimento.
Existe também uma dimensão muito particular na maneira como “Feito Pipa” trabalha a representatividade. Mesmo partindo de um recorte queer através da experiência de uma criança, o longa consegue alcançar questões bastante universais. Liberdade, pertencimento, aceitação e o direito de crescer sem esconder partes de quem somos são sentimentos capazes de atravessar diferentes experiências. Acho que existe uma beleza muito significativa em histórias que conseguem nos aproximar de realidades diferentes das nossas, mas que, no fundo, falam de sentimentos que todos compartilhamos.
Para quem cresceu sem encontrar muitas histórias capazes de refletir suas próprias vivências, assistir a uma obra assim também carrega um significado muito particular. Existe algo profundamente acolhedor em perceber que nossas experiências merecem ser contadas, que nossas histórias também podem ocupar esse espaço e que nenhuma criança deveria crescer sentindo que precisa se esconder. Por isso, acredito que contar histórias como a de Gugu também seja uma maneira de devolver dignidade a experiências que durante muito tempo foram invisibilizadas.
Essa preocupação com a humanidade dos personagens é algo que atravessa a filmografia de Allan Deberton. Seus filmes demonstram um interesse genuíno em observar personagens que, muitas vezes, estão à margem das representações mais convencionais, mas que carregam sentimentos capazes de estabelecer conexões profundas com o público. Existe um cuidado em respeitar suas individualidades e encontrar, dentro de suas experiências particulares, algo que ultrapassa os limites da própria narrativa. O mais importante é justamente aquilo que permanece depois que a história termina e como essas experiências atravessam quem está do outro lado da tela.
É importante também observar a trajetória que “Feito Pipa” vem construindo fora do Brasil. Escolhido para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027, o longa cearense ganhou uma dimensão especial para o cinema nordestino. Sua presença no circuito internacional representa uma oportunidade importante para ampliar o espaço de narrativas brasileiras que não necessariamente seguem uma estrutura comercial tradicional. É verdade que sua linguagem mais intimista, seu ritmo contemplativo e sua proposta sentimental podem representar desafios diante de uma disputa internacional tão competitiva. Uma eventual chegada às principais premiações, como o Oscar e o Globo de Ouro, ainda é uma possibilidade distante e depende de muitos fatores, desde a campanha de divulgação até a recepção da indústria. Mas não é uma possibilidade que deva ser descartada. Independentemente do resultado, existe um mérito significativo em uma produção cearense conseguir alcançar espaços tão importantes sem abrir mão de sua identidade.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja exatamente quem é Gugu, mas quem permite que ele seja. A relação com Dilma é tão significativa porque ela representa a força que sustenta o essencial para que sua identidade floresça. Quando esse vínculo é ameaçado, tudo aquilo que parecia minimamente seguro começa a se transformar. E é nesse momento que compreendemos o tamanho da importância de encontrar alguém que nos enxergue para além das expectativas do mundo.
“Feito Pipa” não é um filme que depende de grandes acontecimentos ou de uma estrutura narrativa comercial para emocionar. Seu ritmo é mais contido, sua proposta é sentimental e sua força está justamente na maneira como observa os pequenos acontecimentos de uma vida. É uma história sobre amor, pertencimento e o medo de perder quem nos faz sentir em casa. Talvez seja por isso que a pergunta inicial continue ecoando mesmo depois da sessão. Quem é esse menino? É Gugu, uma criança autêntica, cheia de desejos, contradições e possibilidades. Um menino que só quer viver sua infância, ser amado e ter a liberdade de descobrir o mundo sem precisar pedir autorização para existir.
Nota: ⭐⭐⭐⭐
Por Rebeca Furtunato