O isolamento talvez seja uma das ferramentas mais poderosas que “Antártida” tinha à disposição. Em uma estação cercada por quilômetros de gelo, distante de qualquer possibilidade imediata de fuga e ocupada majoritariamente por homens, bastaria explorar a sensação de confinamento para que o ambiente se tornasse parte fundamental da história. Há algo naturalmente ameaçador na ideia de estar presa em um dos lugares mais inóspitos do planeta ao lado de pessoas em quem não se pode confiar. O problema é que o filme dirigido por Bruno Safadi parece pouco interessado em construir essa atmosfera. A Antártida está ali, mas poderia ser praticamente qualquer outro lugar. O frio e a sensação de confinamento, elementos que deveriam sufocar a narrativa, raramente ultrapassam a função de cenário.
A trama acompanha a chegada de Inês (Marina Ruy Barbosa), jovem cientista enviada à Antártida para integrar uma missão de monitoramento das mudanças climáticas. Em meio aos preparativos para um período de isolamento da equipe, ela é encontrada desacordada do lado de fora da estação. Ao despertar, descobre-se que foi vítima de violência sexual. É a partir desse acontecimento que “Antártida” abandona parte das possibilidades sugeridas por sua premissa e assume contornos de investigação: entre os homens daquela base está o responsável pelo crime. Em vez de seguir a personagem Inês, e compreender como aquela violência atravessa sua permanência em um espaço do qual ela simplesmente não pode sair, o roteiro progressivamente desloca sua atenção para a descoberta do agressor. A vítima passa a dividir e, em determinados momentos, perde praticamente o protagonismo da própria história. Outros personagens discutem o que aconteceu, levantam suspeitas, confrontam possíveis responsáveis e verbalizam discursos sobre violência, enquanto Inês permanece estranhamente afastada do centro emocional da narrativa.
É uma escolha particularmente problemática porque a obra deseja falar sobre diferentes violências sofridas por mulheres. Inês não é a única. Marina (Leandra Leal) carrega uma relação marcada pela violência de seu ex-marido, o capitão Vicente (Lázaro Ramos); a subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) enfrenta suas próprias feridas enquanto precisa reafirmar constantemente sua autoridade naquele ambiente; e Rose (Marina Sena) parece ter encontrado no apagamento de características associadas à feminilidade uma forma de sobreviver e ocupar espaço entre aqueles homens. São caminhos que poderiam ampliar a discussão proposta pelo longa. Mas é frequentemente apresentado essas questões sem realmente desenvolvê-las. O filme acumula violências, traumas e conflitos como se a presença deles fosse suficiente para produzir profundidade. Não é. Revelações importantes surgem antes que tenhamos estabelecido vínculos sólidos com os personagens e, quando finalmente acontecem, encontram pouco espaço para seguir.
Talvez Marina seja um dos exemplos mais frustrantes dessa superficialidade. Leandra Leal possui força suficiente para comunicar uma personagem emocionalmente fraturada mesmo quando o roteiro oferece pouco material. Existe nela uma instabilidade perceptível, principalmente quando precisa dividir o mesmo espaço com o ex marido. O problema é que a narrativa aponta para uma história complexa de violência doméstica sem dedicar a ela o desenvolvimento necessário. O resultado é uma sucessão de informações graves que aparecem, provoca algum impacto momentâneo e logo cedem lugar ao próximo conflito.
E esse é um problema que atravessa praticamente todo o filme, nada parece ter tempo para sentir.
A montagem acelerada contribui para essa sensação. Conversas importantes terminam antes de criarem tensão; acontecimentos graves são rapidamente substituídos por novas situações; e as paisagens externas da Antártida aparecem repetidamente sem que o filme consiga transformar aquele território em uma verdadeira extensão psicológica dos personagens. É uma oportunidade desperdiçada. A estação poderia funcionar como uma panela de pressão: poucos personagens, meses de confinamento, relações de poder muito bem demarcadas e a impossibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar. A própria investigação poderia ganhar contornos sufocantes diante da certeza de que vítima e agressor permanecem presos no mesmo espaço. No entanto, a câmera parece muito mais interessada em registrar os atores interpretando seus conflitos do que em criar uma sensação genuína de ameaça.
Andréa Beltrão, Leandra Leal, Lázaro Ramos e Antônio Calloni são nomes capazes de sustentar personagens complexos, enquanto Marina Ruy Barbosa recebe justamente a grande responsabilidade de conduzir o acontecimento que reorganiza toda a narrativa. Ainda assim, nem um elenco tão experiente consegue preencher os vazios deixados pelo roteiro. Há boas atuações dentro de um filme que constantemente pede que seus intérpretes verbalizem aquilo que a própria narrativa deveria ser capaz de nos fazer sentir. Os personagens não apenas vivem os temas do filme: precisam anunciá-los. Algumas frases parecem existir menos porque aquelas pessoas naturalmente as diriam e mais porque o roteiro deseja garantir que o público compreenda exatamente qual discussão está sendo proposta.
Quanto mais explica, menos aprofunda. Isso também prejudica as diferenças entre as próprias mulheres apresentadas. Elas ocupam posições distintas naquele ambiente e atravessam experiências que poderiam revelar maneiras muito particulares de lidar com estruturas masculinas de poder. Porém, ao tentar abarcar tantas discussões simultaneamente, o longa reduz questões complexas a apontamentos rápidos. Há uma distância considerável entre apresentar um tema e verdadeiramente investigar ele A pergunta deixa rapidamente de ser “o que aconteceu com essa mulher?” para se aproximar de “quem fez isso?”. Não seria um problema construir um suspense investigativo a partir desse acontecimento. O problema está em utilizar uma violência tão grave como engrenagem narrativa sem demonstrar igual interesse por suas consequências. Quando o trauma existe principalmente para movimentar personagens e produzir revelações, corre-se o risco de transformar aquilo que deveria provocar reflexão em mero dispositivo de roteiro.
Ao final, sobra uma sensação especialmente frustrante porque havia um filme muito mais interessante escondido dentro desse mundo gelado. O cenário é visualmente poderoso, o isolamento oferece possibilidades narrativas enormes e o elenco reúne alguns dos nomes mais fortes do cinema brasileiro. Até a proposta de observar diferentes manifestações da violência contra a mulher dentro de uma estrutura hierárquica e predominantemente masculina poderia render uma obra desconfortável e necessária.
Mas potencial não substitui desenvolvimento. É raso quando precisava mergulhar, acelerado quando precisava permitir que suas personagens respirassem e excessivamente verbal quando deveria confiar nas imagens, nos silêncios e nas consequências daquilo que coloca em cena.
Nota: ✨
Por Rebeca Furtunato