O diretor Will Gluck construiu parte de sua trajetória com comédias românticas divertidas e conscientes das convenções do gênero. Filmes como “A Mentira” e “Amizade Colorida” demonstram sua habilidade para trabalhar relacionamentos, desejos e conflitos contemporâneos com leveza e algum senso de provocação. “Só por Uma Noite”, portanto, parte de uma ideia que parece perfeita para alguém com esse currículo: se já existem tantas distopias sobre violência, vigilância e sobrevivência, por que não criar uma comédia romântica distópica?
Em uma Nova York de futuro próximo, pessoas solteiras são impedidas de manter relações sexuais durante quase todo o ano. A restrição é suspensa somente por algumas horas, provocando uma verdadeira corrida coletiva por encontros casuais. É nesse cenário que Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria que acabou de enfrentar o fim de um relacionamento, conhece Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles que deseja encontrar alguém com quem possa estabelecer uma conexão. A aproximação entre os dois acontece rapidamente, mas diferentes circunstâncias acabam separando eles incontáveis vezes. A partir daí, a narrativa acompanha suas tentativas de atravessar a cidade e recuperar aquele encontro inicial. No caminho, os protagonistas esbarram em novas pessoas, frequentam festas e consideram outros possíveis parceiros. A cada parada, surge a expectativa de encontrar um desconhecido disposto a dividir aquela experiência antes que o período permitido termine.
O início do longa é especialmente envolvente. A apresentação das regras e o comportamento da população diante daquela ocasião despertam curiosidade, enquanto a movimentação pelas ruas estabelece um ritmo divertido. Existe algo bastante promissor na imagem de uma cidade inteira dominada pela ansiedade de aproveitar uma liberdade com hora marcada. Essa situação também abre espaço para uma conversa interessante: as pessoas realmente respeitariam uma proibição tão íntima? Ou criariam diferentes formas de escapar da fiscalização? É fácil imaginar a existência de relacionamentos falsos, festas clandestinas, códigos secretos e casamentos motivados apenas pela possibilidade de contornar a lei. O universo concebido pelo filme poderia render uma sátira muito mais ampla sobre vigilância, hipocrisia e controle dos corpos.
No entanto, o roteiro prefere não se aprofundar nessas possibilidades. As regras são apresentadas como parte daquele cotidiano, sem que a narrativa demonstre grande interesse pelas consequências políticas e sociais da repressão. Essa simplicidade favorece a fluidez da comédia, mas diminui o alcance da provocação. O longa apresenta um contexto perturbador e, logo depois, o transforma apenas em cenário para uma sequência de confusões amorosas. Os encontros e desencontros de Owen e Allie garantem alguns dos momentos mais divertidos. A noite converte a cidade em uma espécie de vitrine de pretendentes, na qual todos observam, escolhem e descartam possíveis companhias com rapidez. As pessoas não parecem estar apenas procurando prazer: também tentam evitar a sensação de terem desperdiçado a única oportunidade disponível. Nesse sentido, o sexo deixa de representar somente liberdade. Ele passa a funcionar como uma obrigação social. Como existe um prazo, aproveitar aquela noite se torna quase um dever, independentemente de haver desejo, intimidade ou segurança. A proibição cria uma pressão tão intensa que até a permissão concedida pelo governo assume outra forma de controle.
O sexo, por si só, não precisa ser compreendido como um problema. Ele pode envolver prazer, descoberta, afeto ou apenas uma experiência casual entre pessoas que desejam a mesma coisa. As dificuldades aparecem quando não existe diálogo sobre as expectativas de cada um ou quando o ato é utilizado como prova de interesse, compromisso ou validação. Para algumas pessoas, ele aproxima; para outras, pode complicar relações que ainda não estão emocionalmente definidas. Allie e Owen parecem procurar algo diferente do comportamento apressado que observam ao redor. Embora participem daquela corrida por companhia, os dois também demonstram o desejo de serem verdadeiramente percebidos. A busca deixa de ser apenas por alguém disponível e passa a ser por aquela pessoa específica encontrada no início da noite. Essa mudança ajuda a sustentar o componente romântico, mesmo quando o roteiro depende excessivamente das coincidências para mantê-los separados.
Também chama atenção o fato de uma produção inteiramente construída ao redor do sexo não apresentar cenas sexuais. Por um lado, isso permite que o interesse recaia sobre o desejo, a ansiedade e as expectativas que antecedem o encontro. Por outro, a ausência combina com a cautela geral do longa. A impressão é a de que o filme deseja abordar liberdade sexual sem abandonar uma postura bastante comportada. Ainda assim, “Só por Uma Noite” é uma experiência agradável e com risadas garantidas. O ritmo funciona, algumas situações são genuinamente divertidas e a dupla principal mantém o interesse pela jornada. A boa impressão causada pelo começo, porém, não se desenvolve na mesma intensidade. Conforme a história avança, torna-se evidente que a produção prefere a segurança de uma comédia romântica tradicional às possibilidades mais estranhas e provocadoras de sua premissa.
O filme não chega a desperdiçar completamente sua ideia, mas também não extrai dela tudo o que poderia. No fim, sua maior qualidade talvez esteja nas perguntas que permanecem depois da sessão. “Só por Uma Noite” rende conversas e reflexões divertidas sobre desejo, repressão e os limites que cada pessoa estaria disposta a enfrentar, ou desrespeitar, para viver uma única noite de liberdade.
Nota: ⭐⭐½
Por Rebeca Furtunato