“Nosso Segredo” começa com um encontro aparentemente banal. Dentro de um carro de aplicativo, Gilson (Robert Frank) e um passageiro idoso desconhecido dividem por alguns minutos o mesmo espaço e uma conversa que, aos poucos, ultrapassa a casualidade daquele trajeto. Em meio ao trânsito de Belo Horizonte, Grace Passô abre seu primeiro longa-metragem com um questionamento simples, mas que ganha outras dimensões conforme a narrativa avança: em que momento deixamos de perceber aquilo, e aqueles, que estão tão próximos de nós? Existe algo curioso em começar uma história sobre uma família justamente pelo encontro entre dois desconhecidos. Naquele carro, a escuta e a troca surgem entre pessoas que provavelmente nunca mais irão se encontrar, enquanto, mais tarde, essa mesma possibilidade de comunicação parece quase inalcançável entre aqueles que compartilham laços, memórias, dores e a mesma casa. O cansaço e a repetição dos dias parecem anestesiar os sentidos, dificultando enxergar o outro mesmo quando ele está a poucos centímetros de distância.
É somente depois desse encontro que a câmera se desloca. Corre pela estrada, atravessa o portão e entra em uma casa que parece vazia e, ao mesmo tempo, saturada de vestígios. Fotografias, desenhos infantis, cartas na geladeira, discos empilhados e objetos espalhados pelos cômodos permanecem quando alguém já não está. Grace Passô filma essa memória material com atenção afetiva, como se cada pequeno objeto ainda carregasse um resquício de vida. O longa nesse momento começa a revelar sua verdadeira natureza. Inicialmente, aproxima-se dessas obras familiares naturalistas do cotidiano tipicamente brasileiro, mas, quanto mais tempo permanecemos naquela casa, mais evidente se torna que Passô pretende seguir por um caminho muito menos usual. O familiar torna-se estranho, os silêncios começam a incomodar e uma atmosfera sombria e enigmática lentamente toma conta da narrativa.
O longa nasce ainda de um reencontro de Grace Passô com sua própria obra. Esse roteiro é uma reescrita de “Amores Surdos”, peça escrita pela artista e levada aos palcos pelo Grupo Espanca!, transportando para o cinema inquietações que já atravessavam sua dramaturgia. Essa origem teatral não é abandonada na adaptação. Pelo contrário: Passô permite que ela contamine a linguagem do filme, sobretudo nos monólogos, na força dos silêncios, na maneira como os corpos ocupam os ambientes e na própria relação estabelecida entre os personagens e a casa.
No centro está uma família atravessada pela morte de seu patriarca. Suely (Ju Colombo), mãe de Gilson, Grazi (Jéssica Gaspar), Guto (Flip) e do pequeno Tutu (Efraim Santos), permanece naquele espaço ao lado dos filhos enquanto cada um encontra, ou evita encontrar, sua própria maneira de lidar com a perda. São pessoas unidas pelo afeto, mas também por uma ausência grande demais para caber em palavras. Gilson, o mesmo homem que encontramos dirigindo pelas ruas de Belo Horizonte no início do filme, passa então a ganhar outra dimensão. A abertura, antes aparentemente deslocada do núcleo familiar, começa a encontrar ecos dentro daquela casa. A disponibilidade para ouvir um desconhecido durante uma corrida contrasta com os silêncios e as dificuldades de comunicação que atravessam sua própria família. São pessoas que se amam, compartilham memórias, dividem a mesma casa e a mesma perda, mas parecem incapazes de verdadeiramente se alcançar.
A casa, então, deixa de funcionar apenas como cenário e se transforma em um dos personagens mais fortes do filme. Existe vida em cada detalhe, mas também uma constante sensação de suspensão. É como se Suely e seus filhos estivessem em uma espécie de limbo, presos à casa, ao passado e à repetição dos gestos. Gente viva atravessada pela convivência permanente com aquilo que já partiu. Mas existe ainda outra coisa convivendo com eles.
Algo habita aquela casa e, por mais que sua presença seja sentida, permanece essencialmente fora de quadro. O que é? Grace Passô não parece interessada em responder. É segredo, e assim permanece. O que importa é perceber que essa presença cresce, ocupa, assusta e transforma. Ela também sangra. Ela também chora. É justamente Tutu, o caçula vivido por Efraim Santos, quem estabelece a relação mais direta com aquilo que os outros não conseguem, ou não querem, perceber. Enquanto os adultos permanecem presos às próprias maneiras de lidar com a ausência, a criança conversa com essa presença misteriosa através dos tubos da casa e chega a alimentá-la com abacates e melancias. Tutu não parece temer aquilo que desconhece; estabelece com o inexplicável uma intimidade que torna tudo ainda mais inquietante.
A inocência da criança preserva uma sensibilidade que parece ter sido anestesiada nos adultos. É através dela que o fantástico deixa de existir apenas como atmosfera e passa a ganhar uma dimensão emocional mais concreta. Aquilo que habita a casa parece carregar, junto daquela família, uma dor que ninguém consegue nomear. Talvez, esteja justamente aí uma das ideias mais interessantes de “Nosso Segredo”: o estranho não invade aquela família. Ele já mora com ela.
Passô encontra no fantástico uma maneira de materializar aquilo que seus personagens não conseguem dizer. Silêncios extensos, medos, hábitos misteriosos e momentos mais teatralizados passam a manifestar um horror desconhecido que percorre a casa. Os monólogos dão corpo às emoções que dificilmente encontram espaço nas conversas familiares, enquanto a narrativa fragmentada nos permite conhecer aquelas pessoas menos por aquilo que explicam e mais pelo que escondem, repetem e silenciam. Há também uma dimensão que ultrapassa o luto individual. Dentro daquela casa vive uma família preta de diferentes gerações, e as relações com memória e ancestralidade atravessam os cômodos tanto quanto a ausência daquele pai. Fotografias, discos, objetos e lembranças deixam de ser apenas elementos de composição do cenário para formar uma espécie de arquivo afetivo daquela família. Preservá-los significa também impedir que aquilo, e aqueles, que existiram desapareçam por completo.
É nesse ponto que o surrealismo do filme encontra algumas de suas imagens mais interessantes. O fantástico não surge como uma fuga completa da realidade, mas brota justamente do que existe de mais cotidiano: uma casa, uma família, uma mesa, frutas, fotografias, objetos guardados e pessoas tentando descobrir como continuar vivendo depois que alguém deixou de estar ali. Algo grande demais para caber em palavras precisa encontrar outra forma de existir.
Nem todas essas ideias, porém, encontram a mesma força ao longo do filme. A opção por uma narrativa tão fragmentada, simbólica e constantemente suspensa faz com que “Nosso Segredo”, por vezes, se torne excessivamente fechado em si mesmo. Há momentos em que a atmosfera construída por Passô parece mais potente do que aquilo que a narrativa consegue desenvolver. O acúmulo de símbolos e a recusa em oferecer respostas fazem parte da proposta, mas também criam certa distância emocional justamente quando o filme busca nos aproximar da intimidade daquela família. Ainda assim, há algo bastante particular na maneira com é escolhido representar a perda. O primeiro longa da diretora não procura explicar o luto, muito menos estabelecer uma maneira correta de superá-lo. Em vez disso, transforma a dor em espaço, silêncio, memória e presença. Aquilo que não consegue ser verbalizado passa a existir dentro da própria arquitetura da casa e dos corpos que a habitam.
Naquela casa, o tempo não necessariamente cura. Ele apenas acomoda.
Nota: ⭐⭐⭐½
Por Rebeca Furtunato