“O Telefone Preto 2”- Scott Derrickson (2025)

Desde sua primeira aparição em 2022, O Telefone Preto deixou marcas profundas no imaginário do terror contemporâneo. Baseado no conto homônimo de Joe Hill — filho de Stephen King —, o filme original transformou uma narrativa curta e perturbadora em um dos grandes sucessos recentes do gênero. Agora, O Telefone Preto 2 atende novamente ao chamado, reaparecendo não como simples sequência, mas como extensão natural daquele pesadelo. Scott Derrickson retorna a esse universo com a proposta de revisitar o medo sob uma nova perspectiva — menos sobre o confinamento e mais sobre o que permanece depois que o horror parece ter terminado. O que antes era um sussurro no escuro, agora ganha novos ecos, provando que algumas histórias não se encerram: apenas esperam o momento certo para tocar de novo.

A continuação de Derrickson encara a difícil missão de revisitar os fantasmas do passado e projetar novos horrores para o futuro. O resultado é um filme que vive em tensão consigo mesmo — difícil de comparar com o original pela diferença de pegada narrativa e técnica, e ao mesmo tempo impossível de dissociar dele por ser uma continuação direta de um trauma ainda pulsante.

No primeiro O Telefone Preto, o horror era íntimo, confinado e sufocante. Derrickson trabalhava o medo em sua forma mais psicológica: o silêncio do porão, o som do telefone, o rosto mascarado do Grabber. Já em O Telefone Preto 2, o terror se expande, deixando o claustro físico para explorar o território da memória, do tempo e do sobrenatural. Se o primeiro era uma história de sobrevivência, o segundo é uma história de legado — sobre o que resta quando o mal parece ter sido derrotado, mas ainda ressoa em ecos invisíveis.

Essa mudança de foco traz uma diferença de ritmo e atmosfera. O novo filme se mostra visualmente mais limpo, menos opressivo, apostando em planos mais abertos e numa fotografia que contrasta o real e o espectral. O confinamento do primeiro dá lugar a um terror difuso, quase espiritual, que se espalha pelo cotidiano. Essa transformação pode frustrar quem esperava o mesmo sufocamento emocional, mas revela a coragem de Derrickson em não repetir a fórmula, e sim evoluir dentro dela.

O roteiro amplia o conceito do telefone como elo entre dimensões — agora, não apenas entre vivos e mortos, mas entre passado, presente e futuro. O aparelho torna-se um portal simbólico, um ponto de convergência onde trauma e redenção coexistem. É nesse cruzamento temporal que o filme mais brilha: o presente é constantemente assombrado pelo passado, mas também sugere que o futuro só existe quando aprendemos a ouvir o que já foi dito — ou o que tentaram silenciar.

As referências aos clássicos do terror são assumidas e orgânicas. Derrickson dialoga com o imaginário de Halloween e A Hora do Pesadelo, tanto na estética suburbana quanto na construção dos medos que vêm de dentro. Há ecos de O Exorcista no modo como o sobrenatural se manifesta por meio da fé e da culpa, e uma pitada de It – A Coisa na ideia de que as crianças são as únicas capazes de enfrentar o mal porque ainda acreditam no impossível. A nostalgia oitentista que permeia Stranger Things também está presente — não como simples citação, mas como camada afetiva, uma forma de reconectar o terror ao sentimento de perda e descoberta que marcou uma geração inteira. Além do toque visual diferenciado dos sonhos visões de Gwen, onde se aproxima bastante da ideia do mundo invertido.

Mas é a protagonista quem realmente tenta sustentar o filme e cumpre a promessa deixada pelo original. Madeleine McGraw mostrou sua atuação extremamente poderosa desde o primeiro longa, que antes coadjuvante, agora assume o protagonismo com uma presença magnética, madura e emocionalmente complexa. Sua ligação espiritual com o telefone e com as vozes do passado a transforma na verdadeira guardiã desse universo. Ela é o elo entre o trauma e a esperança — o futuro atendendo ao chamado do passado.

O Telefone Preto 2 não reinventa o terror, mas o reconecta. Suas referências aos clássicos não soam como mera homenagem, e sim como tentativa de manter viva uma linhagem. Em um gênero onde tantas continuações se limitam a repetir fórmulas, Derrickson entrega uma obra que entende o horror como uma forma de memória — um modo de ouvir o que ainda ecoa nas sombras.

Difícil compará-lo, porque ele fala outra língua; impossível não compará-lo, porque ele responde a um chamado que começou lá atrás. O telefone voltou a tocar. E, desta vez, quem atende é o futuro.

Nota: ✨✨✨,5

Por Ester Graziele

Deixe um comentário