Há uma linha temática que corre silenciosa, mas persistentemente, entre ‘O Sobrevivente‘, ‘A Longa Marcha’, ‘O Macaco’ e ‘O Iluminado’: todas são obras de Stephen King que tratam, cada uma à sua maneira, de pessoas confrontadas por sistemas — sobrenaturais, sociais ou psicológicos — que as esmagam. A nova adaptação, O Sobrevivente, dirigida por Edgar Wright e protagonizada por Glen Powell (‘Assassino por Acaso’, 2023), retorna a esse território, mas com um foco particularmente contemporâneo: a espetacularização da violência e a lógica midiática que transforma vidas em mercadoria.
Embora o filme se passe em um futuro distópico, Wright o enquadra menos como uma projeção futurista e mais como uma extrapolação crítica do presente. O Sobrevivente opera na zona-limite onde entretenimento e repressão se confundem, apontando para um sistema onde a audiência é o verdadeiro motor da violência. A televisão — ou a versão distorcida que vemos aqui — não apenas registra a brutalidade: ela a legitima, a intensifica e, acima de tudo, a vende.
Essa abordagem resgata a estrutura original do romance de King, publicado sob o pseudônimo Richard Bachman, mas Edgar reformula o subtexto político para torná-lo ainda mais incisivo. Se nos anos 80 a crítica mirava a televisão sensacionalista e os reality shows embrionários, agora o filme ressoa com a lógica dos algoritmos, com a cultura da vigilância e com a economia da atenção, onde ver e ser visto se tornou moeda.
Narrativamente, Wright organiza o filme como uma crescente tensão entre indivíduo e estrutura. Aqui, o protagonista interpretado por Glen Powell não é apenas uma vítima do sistema: ele é também um produto dele, uma figura moldada por uma sociedade que opera sob a lógica da exposição contínua. A perseguição que o movimenta pela trama não é apenas física, pois é também simbólica. Ele é caçado porque é útil para a narrativa fabricada pelo programa, e isso mobiliza uma discussão profunda sobre a fabricação de histórias e identidades pela mídia.
A forma como o filme alterna entre ação frenética e momentos de quietude emocional reforça essa dinâmica. A ação funciona como uma demanda do “programa” dentro do filme, enquanto o silêncio pertence ao humano por trás do espetáculo. A tensão entre essas camadas cria um contraste que sustenta a crítica social.
O trabalho de direção aqui merece destaque justamente por fugir do que se espera dele. A montagem rítmica, visualmente estilizada e musicalmente impulsionada aparece, sim, mas comedida, consciente de que o material exige peso e gravidade.
Wright prova que seu estilo não depende apenas de comédia ou leveza; ele também sabe trabalhar com densidade, com as lacunas entre expectativa e moralidade, com a frieza de um sistema que transforma humanos em números.
Há um controle notável de tom: o filme nunca perde sua energia, mas também nunca sacrifica sua crítica em nome do espetáculo. É uma direção que equilibra precisão técnica e intenção sociopolítica.
Glen Powell entrega aqui uma das performances mais completas de sua carreira: física, sim, mas também vulnerável. Sua atuação dá corpo a uma figura que transita entre a submissão e a rebeldia — alguém que entende a lógica do sistema, mas que tenta, de dentro dele, subverter o papel que lhe foi imposto.
Powell interpreta um protagonista que não é apenas resistente, mas contraditório, o que o torna mais crível dentro da crítica estrutural da narrativa. Ele encarna o indivíduo pressionado por um mecanismo esmagador, criando um elo emocional que impede o filme de se perder no cinismo. Colman Domingo, Michael Cera também deixam sua imensa colaborração ocupando espaços que nem imaginávamos fazer diferança.
O cerne da adaptação está na interseção entre espetáculo e poder. O filme argumenta que, quando a mídia controla o que o público vê e o poder controla o que a mídia exibe, a consequência é a normalização da violência — especialmente contra os mais vulneráveis.
A crítica ao autoritarismo é construída de forma estrutural, não apenas discursiva: o governo, aqui, não aparece como figura centralizada, mas como um sistema difuso; a repressão é invisível, silenciosa, quase burocrática; o entretenimento funciona como máscara moral para a violência institucionalizada.
É essa sutileza que dá peso ao filme: a ideia de um controle que não se impõe pela força física direta, mas pela anestesia coletiva da audiência.
O Sobrevivente se destaca não apenas como adaptação de Stephen King, mas como obra que compreende profundamente os mecanismos de poder contemporâneos. Edgar Wright assina um filme visualmente energético, politicamente incisivo e narrativamente coeso, enquanto Glen Powell sustenta emocionalmente a jornada com complexidade e nuance. Porém, acreditaram demais e insistiram na força do subtexto, carregando o filme mais do que necessário na sua duração, o que seria muito bem executado em 1h e 40 minutos de longa.
Mais do que um thriller distópico, é um comentário sobre como a sociedade consome violência e como o entretenimento pode se tornar ferramenta de controle.
Em um mundo saturado por estímulos, “O Sobrevivente” pergunta: o que estamos dispostos a tolerar, ou aplaudir, em nome do espetáculo?
Nota: ✨✨✨,5
Por Ester Graziele