Crítica | “Zafari”: uma alegoria construída pelo medo

Em 2014, a morte de um hipopótamo de 30 anos no Zoológico de Caricuao, em Caracas, repercutiu internacionalmente. Safari morreu após ingerir bolas de borracha, possivelmente arremessadas por visitantes, enquanto denúncias de negligência e abandono expunham o colapso das instituições responsáveis por sua guarda. O episódio, que rapidamente se tornou símbolo de descaso, serve como ponto de partida para Zafari (2024), novo longa de Mariana Rondón, que transforma o caso em uma fábula sobre medo, escassez e tensão de classes em uma Venezuela em ruínas.

A narrativa acompanha Ana (Daniela Ramírez), uma mulher de postura rígida e dolorosa que vive com o marido Edgar (Francisco Denis) e o filho adolescente Bruno (Varek La Rosa) em um edifício de classe alta em acelerado processo de deterioração. A falta de água, luz e alimentos reorganiza o cotidiano da família, agora pautado por trocas, restos e pequenos furtos. Ao redor, moradores abandonam o edifício em busca de condições mínimas de sobrevivência, deixando para trás apartamentos vazios e sinais de uma vida que já não se sustenta. Os que permanecem parecem aprisionados a um espaço em constante ruína, onde a convivência é atravessada pela desconfiança, pelo medo e por uma sensação permanente de perda. A ideia de comunidade não existe mais, dando lugar a relações marcadas pelo isolamento e pelo ressentimento, em que a solidariedade surge mais como exceção do que como regra.

A chegada do hipopótamo Zafari ao pequeno zoológico em frente ao edifício, junto à família humilde responsável por cuidar do animal, intensifica tensões que já estavam latentes. Em um país, onde a fome se impõe como experiência cotidiana, o filme propõe uma inversão simbólica evidente: um animal em cativeiro passa a receber mais atenção e recursos do que muitos seres humanos. O hipopótamo deixa de ser apenas um elemento narrativo e assume a função de símbolo máximo dessa inversão, os personagens humanos se veem abandonados à própria sorte. No universo construído por Rondón, a precariedade dissolve antigos privilégios e expõe o esvaziamento da racionalidade humana diante da ausência de leis, limites e estruturas sociais minimamente estáveis. As relações passam a ser mediadas pelo medo e pela autopreservação. A racionalidade humana se enfraquece, dando lugar a comportamentos guiados mais pelo instinto do que pela razão, em um cenário onde a escassez transforma o cotidiano em um espaço permanente de disputa.

É na relação entre as duas famílias, a de Ana e a dos vizinhos pobres, que o filme evidencia suas fragilidades. Quando os vizinhos pedem autorização para usar a piscina do edifício como forma de aliviar o calor extremo, as diferenças sociais se chocam e a tensão se intensifica. Ainda assim, a construção desses personagens carece de complexidade. A população mais pobre é frequentemente retratada de maneira mais animalizada do que o próprio hipopótamo, enquanto os conflitos são conduzidos por impulsos e disputas de ego, com pouco aprofundamento psicológico ou moral. Embora todos estejam submetidos à mesma lógica de escassez, o filme opta por oposições simplificadas, esvaziando a desigualdade como questão estrutural e reduzindo-a a um confronto naturalizado, quase instintivo, entre grupos.

O desfecho, previsível, reafirma a ideia de que a precariedade atravessa barreiras de classe e expõe o potencial de brutalidade comum a todos. A tese, em si, não é o problema. O impasse está na condução. A violência simbólica está presente, mas carece de densidade emocional e social para produzir verdadeiro impacto. A fotografia surge como um dos principais acertos do longa: imagens secas e cruas que traduzem com precisão a degradação material e moral daquele local. Ainda assim, o rigor estético não é suficiente para dissipar a sensação de artificialidade que atravessa o filme. Ao final, “Zafari” se apresenta como uma obra de clara ambição política e pretensão sociológica, mas de execução irregular. O impacto de seu encerramento não compensa a fragilidade do embasamento moral e social que acompanha a narrativa. Ao retratar uma realidade em que um animal recebe mais cuidado do que os próprios seres humanos, Mariana Rondón levanta uma questão pertinente, mas opta por uma abordagem genérica, sustentada por uma alegoria pouco aprofundada, que evita enfrentar com maior complexidade o contexto que pretende criticar.

Nota:✨✨

Por Rebeca Furtunato

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