Crítica | “O Caso dos Estrangeiros”: Vidas que a Guerra não conseguiu silenciar

O longa “O Caso dos Estrangeiros” parte de uma constatação urgente e incontornável: as guerras não se encerram nas fronteiras onde começam. Elas ultrapassam linhas traçadas no mapa, atravessam mares, idiomas e continentes, infiltrando-se na vida de milhões de pessoas inocentes. Seus efeitos não se limitam ao campo de batalha, e espalham-se pelos hospitais,escolas, casas destruídas e, sobretudo, pelos corpos e memórias daqueles que sobrevivem. Ancorado na Guerra Civil Síria, conflito que desde 2011 redefine o destino de uma geração inteira, o longa constrói um mosaico humano sobre deslocamento, trauma e sobrevivência. Ainda que trabalhe com personagens fictícios, suas trajetórias espelham realidades documentadas diariamente por organizações internacionais e pela imprensa: famílias que fogem às pressas, profissionais que perdem o reconhecimento de sua formação ao cruzar fronteiras, crianças que crescem sob o som de explosões e aprendem cedo demais o significado da palavra exílio.

Dirigido por Brandt Andersen, cineasta americano que frequentemente aborda a temática dos refugiados em sua filmografia, o longa acompanhar múltiplas trajetórias atravessadas pelo mesmo conflito, que se cruzam direta ou indiretamente: Amira (Yasmine Al Massri), médica síria que, após perder quase tudo em um ataque aéreo, torna-se refugiada; Mustafa (Yahya Mahayni), soldado que luta pelo regime de Bashar al-Assad e passa a enfrentar o peso moral de suas próprias ações; Fathi (Ziad Bakri), poeta e pai de família que tenta manter a esposa e os filhos vivos enquanto a guerra implode sua cidade; Stavros (Constantine Markoulakis), capitão da guarda costeira grega encarregado de resgatar náufragos no mar Mediterrâneo; e Marwan (Omar Sy), contrabandista que organiza travessias de barco e lucra com o desespero daqueles que buscam escapar da guerra.

Ao optar por múltiplos pontos de vista, o roteiro tenta sugerir que a guerra não é uma narrativa linear de heróis e vilões, mas uma teia de escolhas extremas e sobrevivência moralmente ambígua. No entanto, essa mesma ambição cobra seu preço. A fragmentação impede maior aprofundamento psicológico, fazendo com que alguns personagens funcionem mais como ideias do que como indivíduos plenamente desenvolvidos. O soldado que só desperta para o horror após ver uma criança ser baleada; o atravessador que reforça sua obsessão pelo dinheiro em diálogos didaticamente sublinhados; o capitão atormentado por não conseguir salvar todos. São figuras potentes, mas por vezes reduzidas a arquétipos.

Ainda assim, há momentos de força incontestável. A trajetória de Amira concentra o núcleo emocional do filme. A cena em que, já exilada, exerce funções além de sua formação médica ecoa uma realidade concreta: a de profissionais altamente qualificados que, ao migrarem, são empurrados para posições precarizadas. Em um dos diálogos mais devastadores, ouvimos: “Mãe, o que a gente fez? O que a gente fez de errado?” A pergunta sintetiza o absurdo moral da guerra,  a punição coletiva aplicada a quem simplesmente nasceu no lugar “errado”.

O longa insiste, corretamente, que as vítimas da guerra Síria não são números. São vidas interrompidas da forma mais brutal possível, da criança ao idoso, todos vulneráveis às consequências de se rebelar contra a República Árabe Síria ou simplesmente de existir sob ela. Há uma dimensão ética inegável nessa humanização.Contudo, o filme também revela suas contradições. Embora critique a xenofobia e denuncie políticas migratórias restritivas, inclusive evocando simbolicamente o endurecimento do discurso anti-imigração nos Estados Unidos, a narrativa flerta com uma lógica de salvação ocidental. Em certos momentos, os Estados Unidos surge como horizonte de redenção, reforçando uma leitura que tangencia o imaginário do “salvador americano”. Essa ambivalência enfraquece parte da potência política que o roteiro parece desejar alcançar.

Há ainda a questão da autoria. Sendo Andersen um diretor branco americano contando uma história sobre refugiados sírios, levanta-se inevitavelmente o debate sobre lugar de fala e mediação narrativa. O filme demonstra empatia genuína e compromisso humanitário, mas não escapa totalmente da sensação de que observa a dor a partir de fora. Falta um enfrentamento mais direto das estruturas geopolíticas que produziram aquele cenário, o longa prefere a emoção à análise sistêmica.

“O Caso dos Estrangeiros” é um bom filme. Imersivo, sensível, bem atuado e comprometido em provocar empatia. Falta-lhe aprofundamento político e maior complexidade moral, mas sobra humanidade. Ao optar por não fechar todas as interpretações, permite que o espectador construa sua própria leitura, ainda que isso também revele lacunas narrativas. No fim, permanece a imagem de pessoas caminhando com seus filhos nos braços, atravessando mares que não deveriam precisar cruzar. O filme pode não esgotar o tema, mas cumpre algo essencial: lembrar que por trás de cada estatística há um rosto, uma história e uma pergunta sem resposta.

Nota: ⭐⭐⭐

Por Rebeca Furtunato

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