A finitude, quando observada de perto, deixa de ser um conceito abstrato e passa a habitar os pequenos gestos do cotidiano. A fragilidade da vida se revela no silêncio, na ausência e naquilo que jamais retorna ao seu estado original. A morte não surge como um ponto final, mas como uma presença constante, capaz de moldar afetos, relações e identidades.
É nesse espaço sensível que “Hamnet”, de Chloé Zhao ( ‘Nomadland’, 2020), constrói um retrato íntimo e profundamente humano sobre a perda. O filme compreende o luto como uma experiência inevitável e transformadora, algo que se instala de maneira silenciosa e redefine para sempre quem permanece.
A direção não poderia ser de outra pessoa que não Chloé. Sua forma de expressão cinematográfica transforma som e imagem em uma experiência sensorial de rara precisão, onde cada elemento existe em plena comunhão. O áudio, os silêncios e os ruídos da natureza se entrelaçam à composição visual com uma delicadeza quase espiritual, criando uma condição estética sem igual. O resultado é um verdadeiro turbilhão de sentimentos, conduzido com rigor e sensibilidade, como uma perfeita sinfonia sobre a vida, a morte e a dor de permanecer. Zhao não impõe emoções. Ela as permite existir, regendo o filme como uma maestra atenta ao tempo de cada nota.
Essa condução encontra na contemplação sua linguagem essencial. A câmera observa, espera, respeita. O luto não é apressado nem explicado. Ele se manifesta nos vazios, nos gestos interrompidos, nos silêncios que ecoam mais alto do que qualquer palavra, mas também grita e dilacera quando o ápice da dor bate, arrebentando todos. Cada escolha de encenação revela um profundo respeito pela experiência humana, como se o filme pedisse licença para tocar feridas tão íntimas.
O roteiro nasce da adaptação do livro homônimo de Maggie O’Farrell, cuja prosa sensível encontra no cinema um prolongamento natural. A participação da autora como roteirista reforça a fidelidade emocional da obra, preservando a intimidade do texto original e traduzindo sua delicadeza literária em imagens, sons e silêncios. Essa transposição respeitosa entre literatura e cinema fortalece o caráter contemplativo do filme e aprofunda ainda mais sua relação com a memória e a ausência.
A fotografia eleva essa proposta a um estado quase pictórico. As cenas na natureza se apresentam como quadros belíssimos, vivos e carregados de significado. Campos abertos, árvores ancestrais e a luz que atravessa folhas e corpos comunicam impermanência. A paisagem não funciona como pano de fundo, mas como extensão emocional dos personagens. A vida floresce, se transforma e se desfaz diante da câmera, refletindo a fragilidade da existência e a beleza contida em sua transitoriedade.
O trabalho de atuação acompanha essa delicadeza formal com uma força emocional avassaladora. O regimento de todo o elenco é magistral, preciso e profundamente orgânico. Não há excessos, apenas verdade. Cada performance parece guiada por um mesmo pulso emocional, resultando em um conjunto mágico e arrebatador. É um filme que não implora lágrimas, mas as provoca pela honestidade de seus sentimentos.
Jessie Buckley ( ‘Estou Pensando em Acabar com Tudo’, 2020) é o coração pulsante de Hamnet e também sua alma. Cotada com absoluto mérito para o Oscar de Melhor Atriz, Buckley entrega uma atuação de força silenciosa e devastadora. Seu corpo carrega o peso da ausência, seu olhar sustenta o vazio deixado pela perda e seus silêncios dizem mais do que qualquer diálogo. Ela não representa o luto. Ela o vive em cena. Sua presença transforma a dor em experiência sensorial, conduzindo o espectador por um percurso emocional impossível de ignorar.
O elenco jovem também se destaca de forma impressionante, especialmente Jacobi Jupe, que vive Hamnet. Sua atuação é marcada por uma sensibilidade rara, capaz de transmitir inocência, curiosidade e uma melancolia quase premonitória. Há em sua presença uma fragilidade luminosa, uma vida que pulsa com intensidade justamente por sabermos o quão efêmera ela é. Jupe transforma Hamnet em memória viva, em ausência sentida mesmo quando ainda está presente em cena.
A produção, que conta com o envolvimento de Steven Spielberg, carrega um cuidado quase reverencial com a narrativa e seus silêncios. Sua presença como produtor não se impõe, mas se manifesta na solidez do projeto, na confiança em um cinema sensível e na liberdade concedida à visão autoral de Zhao.
‘Hamnet’ é, acima de tudo, um filme sobre o que permanece quando tudo parece ir embora. Um estudo delicado sobre a fragilidade da vida, a inevitabilidade da morte e o impacto irreversível da perda. Chloé Zhao entrega uma obra profundamente poética, dolorosa e humana, que transforma imagem, som e silêncio em emoção pura. Um filme que não se limita a ser assistido, mas sentido e que permanece ecoando muito depois do último plano.
Nota : ✨✨✨✨✨ ❤️
Por Ester Graziele