Crítica | “Destruição Final 2”: O fim do mundo não é tão fim assim

“Destruição Final 2”, dirigido novamente por Ric Roman Waugh, parte de uma premissa que já nasce fragilizada: a decisão de prolongar uma história que, no filme original, havia encontrado um encerramento coerente. “Destruição Final: O Último Refúgio” (2020) se destacou no gênero justamente por tratar o apocalipse como uma experiência humana e íntima, encerrando sua trama com um senso de conclusão raro em produções do tipo. A continuação, no entanto, ignora esse fechamento e transforma a sobrevivência em um movimento automático, sem densidade dramática ou necessidade narrativa clara.

Na nova história, a família Garrity deixa o bunker na Groenlândia em busca de um novo local habitável, agora situado no sul da França. A ideia de deslocamento poderia abrir espaço para reflexões sobre reconstrução, pertencimento e recomeço, mas o filme se limita a usar essa jornada como pretexto para encarar situações de perigo cada vez mais genéricas. O caminho importa mais do que o significado de atravessá-lo. Diferente do primeiro longa, em que cada decisão carregava risco real, “Destruição Final 2” trata o perigo como elemento decorativo. Essa fragilidade narrativa também se reflete na condução da própria família Garrity, começando por John Garrity (Gerard Butler). Antes definido por suas habilidades e escolhas, fundamentais para a lógica de sobrevivência do primeiro filme, o personagem passa a assumir um arquétipo genérico do pai resistente, sempre cansado, mas invariavelmente funcional, guiado mais pela conveniência do roteiro do que por coerência dramática.

Esse esvaziamento se estende a Allison Garrity (Morena Baccarin) e Nathan Garrity (Roman Griffin Davis). Allison, que anteriormente sustentava parte da tensão ao representar uma figura materna ativa e emocionalmente combativa, surge aqui apagada, reagindo mais aos acontecimentos do que interferindo neles. Já Nathan, antes elemento central de risco e urgência tanto física quanto simbólica, perde relevância ao ter sua condição de saúde reduzida a um detalhe ocasional, incapaz de gerar tensão real. Com isso, o núcleo familiar deixa de operar como motor emocional da narrativa e passa a funcionar apenas como justificativa para o deslocamento constante da trama, enfraquecendo o impacto humano que havia diferenciado o filme original.

Desastres naturais surgem em sequência, mas sem impacto emocional, funcionando mais como obstáculos insignificantes do que como eventos capazes de transformar os personagens. O mundo desmorona em cena, mas raramente afeta de fato quem o habita. O roteiro também demonstra dificuldade em sustentar sua própria lógica interna. Recursos aparecem quando o conflito exige, aliados surgem convenientemente e sacrifícios humanos são apresentados de forma rasa, sem o peso moral que deveriam carregar. A ameaça constante, essencial ao gênero, se dilui em soluções fáceis que enfraquecem qualquer sensação de envolvimento

Além disso, o filme pouco se interessa pelas consequências psicológicas do pós-apocalipse. Em vez de explorar trauma, luto ou a reorganização das relações humanas, aposta em subtramas deslocadas e momentos de sentimentalismo artificial. A tentativa de humanização soa forçada porque não nasce das circunstâncias extremas, mas de fórmulas já desgastadas pelo próprio gênero. No fim, “Destruição Final 2” não falha por ousar demais, mas por ousar de menos. Sua maior catástrofe não está nos efeitos digitais ou nos cenários destruídos, mas na recusa em justificar sua existência. Ao transformar um fim em ponto de partida, o filme esvazia o impacto da obra original e confirma que nem todo apocalipse precisa de continuação, especialmente quando já não há muito o que dizer.

Nota:✨½

Por Rebeca Furtunato

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