A nova obra de Yorgos Lanthimos chega para reafirmar seu domínio sobre narrativas que combinam estranhamento, crítica social e desconforto emocional. Desde o primeiro enquadramento, o diretor demonstra que continua interessado em tensionar o espectador, mas desta vez o faz com uma aproximação muito mais direta da realidade contemporânea. Só então, dentro dessa atmosfera inquieta, “Bugonia” se apresenta como sua produção mais atual e mais conectada ao mundo real, mesmo envolta em uma alegoria gigante, delirante e absolutamente fresca.
A trama parte da história do personagem de Jesse Plemons, apicultor obcecado por teorias da conspiração, que vive isolado com seu primo Don. Convencidos de que Michelle Fuller (Emma Stone, ‘Tipos de Gentileza’, 2024), CEO de uma grande corporação farmacêutica, é na verdade uma alienígena infiltrada, eles a sequestram e iniciam um processo de interrogatório movido por delírios cada vez mais intensos. A partir daí, o filme mergulha em paranoia, manipulação e instabilidade emocional, transformando um cenário rural aparentemente pacato em um espaço opressivo onde realidade e fantasia se entrelaçam de maneira inquietante.
Ao observar “Bugonia” em diálogo com a filmografia do diretor, a evolução se torna evidente. Já vimos Lanthimos explorar distopias deformadas em O Lagosta, moralidade mítica em O Sacrifício do Cervo Sagrado, jogos de poder venenosos em A Favorita e surrealismo grotesco em Pobres Criaturas. Aqui, porém, ele ancora seu exagero simbólico em um terreno reconhecível, construindo uma história que parece muito mais próxima do nosso mundo. É justamente isso que transforma Bugonia em seu filme mais urgente e realista.
A força do longa também repousa em três pilares essenciais: o trabalho de câmera, as atuações e a mixagem de som. O estilo visual característico de Lanthimos — movimentos lentos e calculados, ângulos que deslocam o olhar e lentes grande-angulares que distorcem a percepção — é utilizado aqui de forma exemplar para traduzir o estado mental dos personagens. A câmera participa da narrativa, ora afastando-se para expor a fragilidade humana, ora aproximando-se até sufocar, criando um constante sentimento de vigília e ameaça.
Mas tão decisiva quanto a imagem é a mixagem de som, que funciona como elemento narrativo e psicológico. Ruídos de ambiente que nunca se calam, zumbidos quase imperceptíveis, silêncios abruptos e a presença constante das abelhas criam um landscape sonoro que vibra com a paranoia dos personagens. A trilha e o som ambiente se tornam instrumentos de manipulação emocional, produzindo desconforto antes mesmo que a cena o explicite. Em diversos momentos, o som parece antecipar o colapso, como se a própria natureza estivesse denunciando que algo está prestes a desmoronar.
As atuações completam essa tríade com precisão absoluta. Jesse Plemons entrega uma performance impressionante, retratando um homem consumido por convicções delirantes com sutileza e brutalidade. A super premiada, Emma Stone, compõe uma protagonista enigmática, calculada e surpreendentemente resistente, transformando pequenos gestos em ameaças veladas. Will Sharp adiciona camadas emocionais que tornam o descontrole progressivo ainda mais crível e doloroso.
Lanthimos transforma o ambiente rural em um organismo vivo. A fazenda, o porão e o campo parecem reagir aos conflitos, como se pulsassem junto com a paranoia dos protagonistas. Cada elemento — som, câmera, interpretação — é orquestrado para construir um estado constante de instabilidade emocional.
No fim, “Bugonia” emerge como um retrato feroz e atual de nosso tempo. Mesmo abraçando uma alegoria insana, caótica e repleta de símbolos, o filme nunca perde contato com a realidade. Pelo contrário, ele a reflete de forma ainda mais precisa. É uma obra que provoca, aperta, sufoca e ecoa depois que termina — um lembrete brutal de que, às vezes, o absurdo é a forma mais honesta de representar o mundo.
Nota: ✨✨✨✨
Por Ester Graziele