“A Empregada” não tenta ser um suspense sofisticado nem pede licença para exagerar. O filme entende desde o início que sua força está justamente no excesso: nos tons que se chocam, nas viradas improváveis e na entrega total à farofa. Ao adaptar o livro homônimo de Freida McFadden, o longa assume o risco de parecer absurdo — e é exatamente aí que encontra sua identidade.
O thriller psicológico aqui não se limita a um único registro. A narrativa transita com liberdade entre a comédia de constrangimento, o drama familiar, o terror doméstico e o suspense psicológico mais clássico. Em vez de enfraquecer a obra, essa instabilidade tonal reforça o desconforto constante do espectador. Nunca sabemos exatamente onde estamos pisando — e essa incerteza dialoga diretamente com a perspectiva da protagonista, sempre deslocada dentro daquela casa e daquela dinâmica familiar.
Há um prazer quase malicioso na forma como o filme brinca com expectativas. Situações que beiram o absurdo são tratadas com seriedade calculada, enquanto momentos potencialmente trágicos ganham um verniz cômico incômodo. Essa combinação faz com que A Empregada abrace plenamente a estética da “farofa consciente”: um cinema que sabe que está exagerando e transforma isso em linguagem, não em falha.
No centro desse caos tonal está Sydney Sweeney (‘Todos Menos Você’) , uma atriz que carrega consigo uma persona pública constantemente atravessada por polêmicas — da hipersexualização de sua imagem ao debate sobre os limites entre escolha artística, marketing e exploração da indústria. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, Sweeney segue sendo escalada para papéis de forte impacto. Para o bem ou para o mau sentido, ela continua ocupando lugares narrativos que exigem entrega total e disposição para o risco.
Em A Empregada, essa presença funciona. Sweeney compreende o tom do filme e sustenta uma atuação consistente mesmo quando o roteiro exige mudanças bruscas de registro. Sua personagem oscila entre vulnerabilidade, estranheza e tensão permanente, e a atriz mantém o controle emocional necessário para que o suspense não descambe completamente para a caricatura. É uma performance que exige cumplicidade do espectador: para quem rejeita a farofa como proposta estética, pode soar constrangedora ou exagerada; para quem aceita o jogo, é exatamente o que mantém o filme de pé.
Em contraponto, Amanda Seyfried ( ‘Meninas Malvadas’) surge como uma âncora dramática fundamental dentro desse universo instável. Com uma atuação mais contida e calculada, a atriz entende que seu papel exige controle e precisão, não explosão. Seyfried sustenta um tom quase cirúrgico, equilibrando o excesso ao redor e oferecendo uma sensação momentânea de ordem dentro do caos narrativo. Sua performance é sólida, segura e consciente do material, ainda que também possa soar artificial para espectadores que esperam naturalismo em um filme que nunca se propôs a isso.
Curiosamente, o desfecho do longa se mostra mais satisfatório do que o da obra literária. Pequenas decisões de roteiro tornam as resoluções mais palatáveis e mais bem organizadas para o audiovisual, priorizando coesão dramática e impacto emocional ao invés de apenas choque. O filme entende que, para funcionar em imagem, precisa ajustar excessos do texto original — e acerta ao fazê-lo.
A Empregada não pretende ser um estudo psicológico sofisticado nem um retrato realista das dinâmicas de poder que aborda. Seu mérito está justamente em reconhecer seus próprios limites e trabalhar dentro deles. Ao transitar livremente entre gêneros, abraçar o exagero e refinar escolhas narrativas da obra original, o filme entrega um suspense envolvente, provocativo e honestamente alinhado com a experiência que promete.
No fim, A Empregada confirma que a farofa, quando assumida e bem executada, pode ser não apenas divertida, mas também eficaz — e que Sydney Sweeney e Amanda Seyfried, cada uma à sua maneira, sustentam um filme que talvez não agrade a todos, mas certamente não passa despercebido.
Nota: ✨✨✨,5
Por Ester Graziele