A DC Studios parece estar encontrando novos caminhos para contar suas histórias, e “Cara-de-Barro” surge como uma das apostas mais interessantes dessa reinvenção. Longe da fórmula tradicional dos filmes de super-heróis, o longa investe no suspense, no terror psicológico e na transformação física de seu protagonista para construir uma narrativa que prende a atenção do início ao fim. O resultado é uma produção que encontra sua própria identidade e mostra que os vilões desse universo também podem sustentar histórias envolventes sem depender da presença de um herói conhecido. Embora “Superman” seja um bom filme e cumpra seu papel nessa nova fase da DC, acredito que “Cara-de-Barro” consegue ser ainda mais interessante. Ao apostar no terror corporal e em uma narrativa mais intimista, o longa encontra uma identidade própria e explora possibilidades que vão além da fórmula tradicional dos super-heróis. É uma produção que demonstra como a reinvenção da DC pode se tornar ainda mais instigante quando abre espaço para histórias ousadas, personagens complexos e perspectivas diferentes dentro de seu universo.
Dirigido por James Watkins, com roteiro de Mike Flanagan e produção de James Gunn, o filme acompanha Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, um ator em ascensão cuja trajetória é interrompida por uma violência que transforma sua aparência e ameaça tudo aquilo que construiu. Desesperado para recuperar a própria vida, ele se submete a um procedimento experimental que promete devolver seu rosto, mas desencadeia consequências devastadoras. Aos poucos, a busca pela antiga identidade dá lugar a uma transformação física e psicológica que conduz o personagem por um caminho cada vez mais sombrio.
É nesse processo que o longa encontra uma de suas principais forças. Mais do que apresentar a origem de um vilão dos quadrinhos, “Cara-de-Barro” explora a relação entre aparência, identidade e reconhecimento. Afinal, quanto daquilo que somos está ligado à maneira como os outros nos enxergam? Para Matt, o rosto representa muito mais do que uma característica física: é parte de sua carreira, de sua autoestima e da imagem que construiu para o mundo. Quando essa referência desaparece, sua luta para recuperar a própria aparência se transforma em uma tentativa desesperada de não perder a si mesmo.
As relações afetivas do protagonista também acrescentam camadas à narrativa. Joana Ribeiro, cuja personagem está ligada ao episódio da festa que desencadeia a violência e o sofrimento do protagonista, participa de um momento decisivo para a transformação de sua trajetória. A sequência ajuda a estabelecer os acontecimentos que empurram Matt para uma realidade cada vez mais perturbadora.
Já Caitlin Bates, interpretada por Naomi Ackie, ocupa um lugar diferente nessa história. Pesquisadora envolvida no processo que possibilita a transformação física de Matt, ela se aproxima do protagonista em meio à ciência, ao desespero e às consequências de uma experiência que foge ao controle. É nessa relação que a narrativa encontra espaço para desenvolver uma conexão afetiva mais profunda, atravessada pela vulnerabilidade e pela tentativa de enxergar o homem que ainda existe por trás das mudanças. A presença da paixão em meio ao horror cria um contraste interessante. Enquanto Matt luta para recuperar sua aparência, também precisa lidar com o medo de deixar de ser reconhecido, desejado e amado. O filme sugere, assim, que a perda da identidade não acontece apenas diante do espelho: ela também se manifesta na maneira como o protagonista passa a se relacionar com as pessoas ao seu redor. As personagens femininas contribuem para essa dimensão emocional ao ocuparem lugares distintos na trajetória de Matt. Ainda que suas individualidades pudessem receber maior aprofundamento em determinados momentos, suas presenças não se resumem a acompanhar a transformação do protagonista. Elas participam dos conflitos que impulsionam a narrativa e ajudam a revelar as diferentes consequências de suas escolhas.
Na parte visual, “Cara-de-Barro” aposta no “body horror”, explorando as deformações do corpo, a perda de controle sobre a própria aparência e os efeitos perturbadores da transformação de Hagen. As sequências provocam desconforto e reforçam a dimensão trágica da história, embora possam dividir o público. Para quem procura um terror corporal extremamente explícito, algumas cenas talvez pareçam mais suaves do que o esperado. Isso não significa ausência de momentos agonizantes, mas uma escolha que privilegia a construção do horror dentro da narrativa, em vez de apostar o tempo inteiro no choque visual. A transformação física de Matt também abre espaço para uma leitura sobre saúde mental, autoimagem e identidade. O protagonista passa a enfrentar uma realidade na qual seu próprio corpo deixa de corresponder à imagem que tem de si. A sensação de estranhamento, a perda de controle e o desespero diante das mudanças ampliam o sofrimento psicológico que acompanha sua transformação.
Tom Rhys Harries sustenta esse processo com uma atuação envolvente, equilibrando vulnerabilidade, obsessão e violência. O desafio não está apenas em representar um corpo que se modifica, mas em transmitir a angústia de alguém que tenta preservar a própria humanidade enquanto se torna irreconhecível para si e para os outros. O horror, portanto, não está somente nas deformações visíveis. Ele também reside na distância crescente entre quem Matt acredita ser e aquilo que vê diante do espelho. É uma abordagem que permite ao filme ultrapassar a simples exibição do grotesco e construir uma figura monstruosa cuja trajetória ainda desperta empatia. Vale lembrar, porém, que a transformação sobrenatural pertence à fantasia da narrativa; as questões de identidade e vulnerabilidade emocional são dimensões humanas que ampliam seu impacto.
Outro acerto está na ambientação de Gotham. A cidade ganha uma atmosfera sombria, áspera e marcada pela criminalidade, funcionando como parte importante da identidade do filme. Existe uma sensação constante de decadência que combina com o estado emocional do protagonista e com a violência que atravessa sua trajetória. Mesmo sem depender de aparições ou menções diretas ao Batman para sustentar o interesse, a produção consegue explorar o universo do personagem e construir uma história que se mantém de pé por conta própria. Essa autonomia é um dos pontos mais interessantes da experiência: em vez de transformar Matt Hagen em uma peça secundária na galeria de inimigos do Batman, o longa permite que ele ocupe o centro da narrativa.
Sua origem não funciona apenas como preparação para futuros confrontos, mas como uma história com conflitos, motivações e identidade própria. A DC ganha novas possibilidades quando compreende que seu universo não precisa girar exclusivamente em torno de seus heróis mais populares. Vilões também podem protagonizar narrativas complexas, explorar outros gêneros e conquistar o público por seus próprios méritos. O envolvimento de James Gunn na produção reforça o interesse por essa nova fase da DC Studios, que procura ampliar as possibilidades narrativas de seus personagens. Mas, particularmente para esta cinéfila, a presença de Mike Flanagan no roteiro desperta uma expectativa especial. Conhecido por seu trabalho com o terror psicológico e por histórias que exploram as fragilidades humanas, Flanagan é um nome que chama a atenção quando o assunto é horror. Em “Cara-de-Barro”, essa aproximação com o gênero se manifesta na possibilidade de relacionar o grotesco à perda de identidade, ao sofrimento emocional e às consequências de uma transformação que ultrapassa os limites físicos.
O filme também dialoga com diferentes tradições do terror e das histórias em quadrinhos, aproximando o universo dos vilões da DC de uma experiência mais sombria e desconfortável. Não se trata apenas de apresentar um antagonista conhecido por sua capacidade de mudar de forma, mas de explorar o que acontece quando essa habilidade se torna parte de uma tragédia pessoal. Essa combinação torna a produção uma aposta particularmente interessante: há espaço para o espetáculo visual, mas também para os conflitos que sustentam a trajetória do personagem. Mesmo quando o roteiro poderia aprofundar algumas relações ou desenvolver melhor determinados elementos, a proposta consegue manter o espectador envolvido.
Entre os lançamentos dessa nova fase da DC, “Cara-de-Barro” é, para mim, o favorito do ano. É uma aposta diferente justamente por fugir do caminho mais previsível e demonstrar disposição para experimentar outras possibilidades dentro desse universo. O longa não precisa ser perfeito para conquistar: sua capacidade de envolver o espectador, provocar desconforto e desenvolver um personagem complexo já o torna uma experiência que merece atenção. Os momentos de horror corporal podem não atingir a mesma intensidade para todos os fãs do gênero, e algumas relações poderiam receber um tratamento mais aprofundado. Ainda assim, esses aspectos não anulam o mérito de uma produção que encontra sua força na combinação entre suspense, tragédia e transformação física. O filme entende que o grotesco ganha outro significado quando existe uma história capaz de sustentar aquilo que aparece na tela.
Saí com vontade de assistir novamente, e isso diz muito sobre o impacto da produção. A obra representa uma mudança de perspectiva para a DC Studios, que começa a mostrar como diferentes gêneros e personagens podem ampliar as possibilidades de seu universo cinematográfico. No fim, o monstro não precisa dividir a tela com o Batman para provar seu valor. “Cara-de-Barro” brilha sozinho, e essa é uma das razões pelas quais merece uma chance nos cinemas brasileiros.
Nota: ✨✨✨✨
Por Rebeca Furtunato