Crítica | “Os Estranhos: Capítulo Final” e o terror de continuar assistindo


Falar de “Os Estranhos: Capítulo Final” (2026) é, antes de qualquer coisa, lidar com o esgotamento absoluto de uma proposta que já não se sustentava, e que, ainda assim, foi esticada até o limite. Sob a direção de Renny Harlin, o longa tenta encerrar uma trilogia que começou de forma fraca e, com uma consistência quase impressionante, conseguiu piorar a cada novo capítulo. O que deveria funcionar como um desfecho impactante se transforma em mais uma tentativa desnecessária, uma insistência quase teimosa em revisitar uma ideia que já havia dito tudo o que precisava lá atrás, no original de 2008 com a direção de Bryan Bertino. Existe algo particularmente frustrante na forma como “Os Estranhos” parece ignorar a própria essência do que um dia fez essa história funcionar. O terror do primeiro filme estava na simplicidade brutal, no desconforto do inexplicável, na violência que não precisava de justificativa. Aqui, no entanto, essa força é completamente diluída em uma narrativa inflada, que se arrasta entre repetições, decisões duvidosas e uma tentativa desesperada de parecer maior do que realmente é.

O grande problema do longa está justamente em sua incapacidade de decidir o que quer ser. Ao mesmo tempo em que tenta preservar o terror do inexplicável, aquele que marcou o primeiro filme com a emblemática resposta “porque você está aqui”, também ensaia uma expansão de universo que nunca se concretiza de fato. O resultado é uma narrativa fragmentada, que se arrasta ao longo de três filmes como se fossem partes incompletas de um único longa inflado, entregando pouquíssimos momentos de tensão real em meio a uma duração cansativa e repetitiva.

Há, ao longo de “Os Estranhos: Capítulo Final”, uma tentativa óbvia de aprofundar o contexto da cidade e dos seus moradores, sugerindo uma conivência silenciosa diante da violência e da presença dos assassinos mascardos. Essa ideia, por si só, poderia render um caminho narrativo instigante, ampliando o terror para além da invasão doméstica e explorando um medo coletivo e estrutural. No entanto, tudo permanece na superfície. O filme apresenta possibilidades, mas não se compromete com nenhuma delas, desperdiçando um mistério que tinha potencial para ser o elemento mais interessante de toda a trilogia.

A inserção de uma suposta mitologia para os assassinos, por meio de flashbacks e fragmentos de passado, permanece e insiste na sensação de vazio. Em vez de enriquecer a narrativa, essas escolhas apenas diluem o impacto do horror. Explicar o mal exige consistência, e o terceiro capítulo não oferece isso. O que vemos são pedaços desconexos que não aprofundam personagens nem ampliam a ameaça, apenas ocupam tempo de tela, como se o filme precisasse justificar uma existência que nunca se provou necessária.

No centro dessa jornada está Maya, vivida por Madelaine Petsch, uma protagonista que passa por uma longa trajetória de sobrevivência sem, de fato, evoluir de maneira convincente. Ao longo de praticamente três filmes, sua jornada se resume a correr, fugir e reagir tardiamente. Quando finalmente assume uma postura ativa, a virada já chega esvaziada, tarde demais para resgatar três filmes de hesitação, repetição e decisões pouco inteligentes. É como se o arco da personagem chegasse atrasado demais, depois que o interesse do espectador já se perdeu no meio de decisões repetitivas e pouco inteligentes. E é impossível ignorar o acúmulo de escolhas narrativas que beiram o absurdo: mortes sem impacto, momentos dramáticos conduzidos com uma passividade frustrante e elementos completamente deslocados, que quebram qualquer imersão. Em vez de tensão, o que se constrói é uma sensação constante de irritação, como se o filme sabotasse a si mesmo a cada nova sequência.

A fotografia da obra polida e a construção visual mais “limpa” entram em conflito com o tipo de terror que a história pede. Falta frieza, falta desconforto, falta aquele silêncio incômodo que transforma o ordinário em ameaça. Aqui, tudo parece previsível demais, como se cada susto fosse anunciado antes mesmo de acontecer, tornando o medo mecânico e sem impacto. Ainda assim, há um esforço visível por parte de Madelaine Petsch em sustentar emocionalmente a narrativa. Sua entrega tenta dar peso a um roteiro que constantemente desmorona, sendo talvez o único elemento que mantém algum nível de envolvimento ao longo da projeção. Mas nem mesmo isso é suficiente para salvar o final dessa inconsistência.

No fim, “Os Estranhos: Capítulo Final” cumpre apenas a função mais básica de encerrar uma história, e ainda consegue falhar até nisso ao transformar o próprio desfecho em algo morno e esquecível. Falta urgência, falta impacto e, principalmente, falta motivo. Tudo soa como uma extensão forçada de algo que já estava encerrado há muito tempo, um último suspiro que não provoca tensão, só desgaste.. A trilogia, que tinha nas mãos a chance de explorar o medo do desconhecido e a violência sem explicação, prefere se perder em repetições e escolhas sem peso, terminando exatamente como caminhou: sem direção e sem propósito.

Nota:✨½


Por Rebeca Furtunato

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