Crítica | “A Noiva!” — quando a criatura grita e transforma o clássico

Há algo profundamente provocador em revisitar mitos fundadores do cinema e da literatura. Não apenas pelo peso simbólico que carregam, mas pela pergunta inevitável que acompanha qualquer releitura: o que ainda pode ser dito sobre essas histórias? Em “A Noiva!”, dirigido por Maggie Gyllenhaal, essa pergunta não recebe uma resposta cautelosa ou reverente. O filme se constrói como um gesto de enfrentamento. Ao olhar para o legado de “A Noiva de Frankenstein” (1935), Gyllenhaal decide tensionar o mito, expandindo suas camadas dramáticas e políticas e colocando a personagem que antes era quase um símbolo silencioso no centro de uma narrativa inquieta, estranha e surpreendentemente contemporânea.

A origem desse imaginário está no romance Frankenstein, publicado em 1818 por Mary Shelley. Ainda muito jovem quando escreveu o livro, Shelley construiu uma história que atravessa séculos justamente por lidar com questões universais: criação, abandono, responsabilidade e o desejo humano de ultrapassar limites. O filme de Gyllenhaal entende essa herança e a incorpora de forma interessante. Em determinados momentos, a própria Mary Shelley surge como uma presença dentro da narrativa, quase como uma observadora que confronta suas próprias criaturas. Esse recurso cria uma camada metalinguística curiosa: a autora parece dialogar com a própria Noiva, como se revisse aquilo que ajudou a imaginar e se perguntasse até onde aquela história poderia chegar.

No centro dessa nova leitura estão duas performances que sustentam o impacto do filme. Jessie Buckley assume o papel da Noiva com uma intensidade magnética, transformando a personagem em uma figura inquieta, imprevisível e profundamente viva. Ao seu lado, Christian Bale interpreta Frankenstein com uma presença que mistura brutalidade, melancolia e uma humanidade inesperada. O encontro entre os dois não se resume a uma relação de amor tradicional, e talvez esteja aí uma de suas decisões mais interessantes. Apesar da relação entre a Noiva e Frankenstein atravessar a narrativa, o filme não se preocupa em romantizar esse encontro ou transformá-lo em um destino inevitável. O que está em jogo é algo muito mais complexo: identidade e autonomia.

A responsável por devolver a vida à Noiva é a cientista Dr. Euphronius, personagem que conduz o experimento responsável por ressuscitar a criatura. A presença dessa figura reforça um dos temas centrais do universo de Frankenstein: a fascinação humana pela possibilidade de controlar a vida e ultrapassar fronteiras naturais. No entanto, o filme parece menos interessado no feito científico em si e mais nas consequências que surgem quando essa vida ganha autonomia e passa a tomar decisões próprias. Ao redor desse núcleo central, surgem personagens secundários que ajudam a ampliar o universo da história. Detetives aparecem tentando compreender os acontecimentos que passam a escapar do controle. Há também vigaristas e figuras oportunistas que circulam pela narrativa, enxergando na Noiva um mistério a ser explorado ou uma oportunidade de lucro. Buscanta até mesmo a eliminação da protagonista. Essas presenças ajudam a compor um cenário social que reage de formas diversas à existência da criatura: curiosidade, medo, fascínio ou simples interesse.

A trajetória da Noiva é movida por um conflito essencial: o que significa viver quando a sua própria vida foi planejada por outros? Criada para ocupar um papel específico, ela começa a questionar essa lógica e decide confrontar o destino que lhe foi imposto. Esse gesto transforma a personagem em algo muito maior do que uma figura do horror clássico. Aos poucos, ela se torna um símbolo de insubordinação feminina, uma presença que se recusa a permanecer dentro das expectativas criadas por homens, cientistas ou pela própria narrativa que a originou.Um detalhe curioso da narrativa é que a Noiva sequer possui um nome definitivo. Ao longo da história, ela passa por diferentes identidades —Ida, Penelope, Noiva — rótulos atribuídos por outras pessoas que tentam enquadrá-la em algum papel. Essa troca constante evidencia uma personagem em construção, alguém que atravessa o mundo ainda sem uma identidade própria.

Essa rebeldia surge de forma menos escancarada e mais orgânica. A Noiva não se define por discursos, mas por atitudes. Ela reage, questiona e enfrenta aqueles que tentam controlá-la. Em alguns momentos, essa energia lembra o espírito caótico de Harley Quinn e Coringa, figuras que transformam a desordem em uma forma de liberdade. Há também algo da cumplicidade perigosa e marginal de Bonnie Parker e Clyde Barrow, como se a personagem carregasse essa pulsão de viver fora das regras impostas pela sociedade. Ainda assim, a Noiva interpretada por Jessie Buckley busca compreender o que significa viver para além das estruturas que tentam defini-la.indiretamente que ela causou nas mulheres, que como aliadas mancham o rosto como os da noiva. caracteristico e expressivo

Um dos gestos mais simbólicos do filme surge quando a figura da Noiva passa a ecoar para além da própria narrativa e inspira outras mulheres dentro daquela sociedade. Sem discursos inflamados ou declarações explícitas, o movimento nasce de um gesto simples e poderoso: algumas mulheres começam a manchar o rosto, reproduzindo as marcas características da Noiva. A imagem, ao mesmo tempo crua e expressiva, transforma-se em um pequeno ato de aliança silenciosa. Não se trata de uma revolução organizada, mas de um reconhecimento coletivo, como se aquelas mulheres enxergassem na criatura algo que também lhes pertence: a recusa em permanecer no lugar que lhes foi imposto. Nesse momento, a estética da personagem deixa de ser apenas visual e se converte em símbolo. As manchas no rosto passam a carregar um significado político sutil, quase clandestino, sugerindo que a existência da Noiva provoca mais do que espanto ou curiosidade.

Visualmente, A Noiva! acompanha essa inquietação narrativa com uma estética que mistura o gótico clássico com momentos de extravagância quase teatral. Maggie Gyllenhaal constrói um filme que flerta com o estranho e o hipnótico, alternando sequências intensas com imagens que parecem surgir de um delírio estilizado. Há momentos de dança, enquadramentos ousados e escolhas visuais que reforçam a sensação de que aquela história está constantemente se transformando. Ainda assim, o filme não é perfeito. Seu início pode soar lento e até confuso, como se estivesse procurando o próprio ritmo. A narrativa demora um pouco para encontrar o tom que realmente a sustenta. No entanto, quando a história finalmente se entrega às próprias ideias e deixa sua intensidade crescer, o resultado se torna cada vez mais envolvente. A partir desse ponto, o filme ganha força e caminha para um desfecho que se revela verdadeiramente impactante.

É como se a obra começasse hesitante, mas aos poucos mergulhasse em uma nova fonte criativa, e quando isso acontece, transborda atuação de primeira linha e uma energia narrativa que sustenta todo o restante da experiência. Jessie Buckley, em especial, entrega uma performance vibrante, daquelas que transformam personagens em presenças inesquecíveis. No fim das contas, o filme Gyllenhaal não tenta repetir o passado. Ele prefere atravessar o mito de Frankenstein e reinventá-lo a partir de novas perspectivas. Mais de dois séculos depois de Mary Shelley imaginar essa história, a criatura finalmente assume o centro da narrativa e reivindica algo que sempre lhe foi negado: o direito de decidir quem deseja ser.

E quando essa decisão acontece, a Noiva não pede licença. Ela está chegando!

Nota: ⭐⭐⭐⭐

Por Rebeca Furtunato

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