“Marty Supreme” acompanha a trajetória de um mesatenista extremamente talentoso cuja ascensão no esporte é atravessada por ambição desmedida, ego inflado e uma necessidade constante de controle. O filme observa sua jornada dentro e fora das mesas, entre competições decisivas, negociações de bastidores e relações pessoais corroídas pela certeza de que o mundo lhe deve algo. Mais do que um drama esportivo, a narrativa se constrói como um retrato crítico do privilégio em movimento, onde vencer não basta e ocupar o centro se torna uma obsessão.
O enredo principal se estrutura a partir da carreira esportiva do protagonista, mas rapidamente extrapola o universo do tênis de mesa para se tornar uma alegoria de poder. Ele não joga apenas para vencer, mas para impor autoridade, definir regras e concentrar os olhares sobre si. Essa postura encontra uma leitura metafórica direta com os Estados Unidos enquanto nação que historicamente se coloca como centro político, econômico e simbólico do mundo, legitimando suas ações a partir da própria convicção de superioridade. Não se trata apenas de talento ou força, mas da crença de que ocupar o centro é um direito natural.
A fotografia reforça essa lógica de maneira extremamente consciente. Além dos planos gerais rigorosamente centralizados e dos zooms aplicados com precisão, o filme faz uso recorrente de planos atravessados, nos quais outras pessoas ocupam o primeiro plano, mas jamais o protagonismo. Mesmo quando há corpos entre a câmera e o personagem central, a imagem desfoca o entorno, atravessa obstáculos e acompanha sua presença, reafirmando a centralidade visual. A câmera escolhe um único foco o tempo todo, anulando o outro e transformando o espaço compartilhado em palco exclusivo.
Esses planos atravessados funcionam como uma declaração simbólica. O mundo pode até estar cheio, mas apenas um sujeito importa. Essa estratégia visual ecoa a ideia de excepcionalismo, na qual uma presença dominante se impõe mesmo diante de outras vozes, outros corpos e outras histórias em cena. A fotografia, assim, não apenas embeleza, mas legitima um olhar hierárquico, colocando o espectador na mesma posição de privilégio daquele que ocupa o centro.
Timothée Chalamet (‘Um Completo Desconhecido’, 2024) constrói um personagem arrogante, irritante e autoritário, alguém que acredita que tudo pode, tudo merece e em todos manda. Sua atuação transforma o carisma em ferramenta de desconforto, sustentando uma figura que não negocia espaço. Essa postura encontra paralelo direto na forma como os Estados Unidos frequentemente se colocam acima do questionamento externo, agindo como se a centralidade justificasse qualquer excesso. Não há pedido de permissão, apenas ocupação.
O ritmo acelerado do filme reforça essa lógica expansionista. Sempre há algo acontecendo na vida do protagonista, um novo torneio, uma nova disputa, uma nova vitória a ser exibida. A narrativa raramente desacelera, criando uma sensação constante de avanço e urgência. Parar significaria ceder espaço, e ceder espaço é algo que essa figura central se recusa a fazer.
Rachel, interpretada por Odessa A’zion (‘I Love LA’, 2025), surge como a força que tenciona essa centralidade. Diferente dos personagens que atravessam o quadro desfocados, ela resiste à lógica da anulação. Sua presença funciona como contraponto ético e simbólico, revelando que há existências que não aceitam ser colocadas em segundo plano. Não disputa o centro, mas questiona sua própria legitimidade, e é justamente nessa recusa que o filme encontra parte de sua densidade crítica.
A jornada de amadurecimento se constrói não como redenção, mas como confronto com os próprios limites. À medida que o sucesso avança, o isolamento cresce, e o centro que antes simbolizava poder passa a se tornar um espaço de aprisionamento. Marty Supreme utiliza a trajetória de um mesatenista para refletir sobre ego, hegemonia e a ilusão de que ocupar o centro do enquadramento equivale a compreender o mundo ao redor.
Nota: ⭐⭐⭐⭐
Por Ester Graziele